Depois de cinco anos de obras, o Jardim Gulbenkian está maior e o seu Centro de Arte Moderna (CAM) tem uma nova cara. É um novo capítulo na história de um terreno cheio de histórias, que acompanhou o crescimento de Lisboa. Com uma discoteca no jardim e entrada livre para tantos quantos queiram: assim se inicia o novo período do Jardim da Gulbenkian.

É um marco na rentrée cultural de 2024, há muito desejado pelos lisboetas que viram, nos últimos cinco anos, muros cobertos de tapumes e andaimes junto à rua Marquês da Fronteira. No sábado 21 de setembro, a nova ala do Jardim Gulbenkian e a nova fachada do Centro de Arte Moderna são revelados ao público e a entrada no CAM será gratuita até 7 de outubro.
Além da nova fachada, o CAM ganhou área expositiva e até algumas salas permanentemente gratuitas para que um visitante possa tomar um shot de arte em dez ou 20 minutos a meio do dia. O jardim cresceu 7500 metros quadrados graças à aquisição do Jardim Vilalva, contíguo à Fundação – e que pertencia à Fundação Eugénio de Almeida.
É a reunião de dois pedaços da mesma história separados há 67 anos, quando a Fundação Calouste Gulbenkian se instalou no Parque de Santa Gertrudes.
Até então este lugar fora lavrado com hortas e vinha, fora parque de diversões ou jardim zoológico, fronteira da cidade e ponto de partida para o seu crescimento. O quarteirão que agora se apresenta renovado ajuda a conhecer melhor Lisboa e até o início da televisão em Portugal.
Com 12 episódios curiosos dos últimos dois séculos, revisitamos a sua história:
1) O primeiro passo para Lisboa crescer
Aqui já não se estava na cidade. No início do século XIX, Lisboa ia até ao Largo de São Sebastião da Pedreira, zona que marcava a transição entre os edifícios urbanos e as quintas e hortas, rurais, lavradas e onde, ao domingo, a classe trabalhadora podia espraiar-se e divertir-se nos retiros, sítios de fado, comida e bebida barata. No proto-jardim da Gulbenkian estava-se nos arrabaldes.
Sem eixos como a Avenida da Liberdade, Fontes Pereira de Melo ou António Augusto Aguiar, a ligação da Baixa Pombalina ao largo em triângulo era sempre a subir por uma via mais ou menos a direito, vinda das Portas de Santo Antão — a rua de São José e Santa Marta, que ainda lá estão. No topo do Largo de São Sebastião começava a Quinta do Provedor dos Armazéns que, em boa parte, podemos identificar com o terreno da Gulbenkian.
A propriedade não tinha limites a norte (na zona da Avenida de Berna, por exemplo), mas era bem claro que começava junto ao Largo de S. Sebastião, onde ficava — e fica — o Palácio do Provedor dos Armazéns, um edifício nobre que na época era uma espécie de remate à construção urbana da cidade.


Na fachada de tardoz do edifício, a vista era para um interminável campo de cultivo, com hortas, pomares, vinha, trigo, com estradas a limitar a propriedade à direita e à esquerda (hoje a rua Marquês Sá da Bandeira e Dr. Nicolau Bettencourt). O palácio era como ummiradouro para a quinta, estava-se no ponto mais alto.
Em primeiro plano ficava um pequeno jardim, a zona ocupada pelo espaço que agora abre ao público e que guarda ainda uma pegada deste tempo: uma nora em pedra e um poço (hoje seco).
O desenvolvimento da cidade retalhou esta grande propriedade a partir de meados do século XIX. O passo inaugural deste movimento foi a criação da Estrada da Circunvalação, em 1857, que ligava a zona oriente à zona poente da cidade, do Alto de São João a Alcântara e definia, à sua frente, uma nova zona para a construção de edifícios, estradas e parques.
Com a grande vaga de migrações do final do século, fica clara a necessidade de expansão: Lisboa passou de 187 mil habitantes, em 1878, para 301 mil em 1890.
Na freguesia de S. Sebastião, o caminho foi aberto entre o palácio e a quinta, afastando a casa do seu jardim. Até hoje, esta circunvalação foi retalhada, desdobrada, multiplicada, mas ainda se vê um descendente seu: a Rua Marquês da Fronteira, que continua a dividir o palácio, onde se instala hoje o Provedor de Justiça, da quinta, a Gulbenkian.
2. O castelinho para cavalos das Avenidas Novas
As obras para unir o Jardim de Vilalva ao Jardim Gulbenkian focaram-se na zona norte do quarteirão. É lá que está a novidade: a entrada pela Marquês da Fronteira, que ganhou um larguinho em lua e arborizado. O muro foi rebaixado, como se não houvesse grande divisão entre o agora jardim da Fundação e a rua.

No entanto, há meia dúzia de anos, passar por este troço era pasmar com a existência de uma estranha figura: uma muralha no meio das Avenidas Novas. A marca foi deixada por um grande capitalista do século XIX, enriquecido pela produção de tabaco, sabão e pólvora: José Maria Eugénio de Almeida, que adquiriu a Quinta do Provedor dos Armazéns e o seu palácio por volta de 1860. Era dono de meia Lisboa.
Do Marquês de Pombal ao Parque Eduardo VII, da Avenida António Augusto Aguiar à Rodrigo da Fonseca, tudo lhe pertencia e os seus descendentes vieram a ser expropriados para que estas obras acontecessem.
Quando morreu, o património de Eugénio de Almeida cobria 34% do défice nacional. A Quinta do Provedor dos Armazéns foi a propriedade onde escolheu viver, depois de tornar o palácio original na obra neo-clássica que conhecemos.

Do outro lado da Estrada da Circunvalação, refez a quinta com todo o tipo de árvores vindas de longe — olaias, castanheiros-da-Índia, Cedros-do-líbano, e outras, vindas do Campo Grande, Lumiar, Queluz, Belas, Sintra. A quinta deixou de ser lugar de veraneio e passou a ser um jardim íntimo.
Desenhado pelo suíço Jacob Weiss, dentro da moda inglesa, podia ser percorrido pelo caminho central, que atravessava o jardim, ou por outros secundários que dava acesso a ambientes construídos como cenários de pintura, para contemplar. Ao centro do parque — sensivelmente o centro do Jardim Gulbenkian — Weiss abriu um lago que se impunha sobre tudo o resto e que foi finalizado com rochedos trazidos de Monsanto.
A propriedade foi batizada Parque de Santa Gertrudes e foi coroada com o tal curioso castelo. Há pelo menos duas explicações para a sua construção, segundo a investigação da historiadora da arte Joana da Cunha Leal. Eugénio de Almeida, sendo um milionário sem linhagem nobre, pode ter querido dar um verniz aristocrático à família. Porém, a hipótese mais interessante é a de querer simplesmente tratar bem os seus cavalos.
Conheceu, numa viagem pela Escócia, um lorde que dizia que os portugueses não sabiam tratar dos seus cavalos. Em resposta, Eugénio de Almeida contratou o cenógrafo do São Carlos, Giuseppe Cinatti, e pediu-lhe que construísse um palácio acastelado, com muro a condizer, para servir de cocheiras aos seus animais.
Saído do seu palácio com aqueles que o visitavam, José Maria Eugénio de Almeida podia atravessar a estrada e entrar nas cavalariças como um rei entra no seu castelo. Aqueles que não conheceram a insólita muralha das avenidas novas, têm, na nova entrada da Gulbenkian, o edifício das cocheiras, também com as suas ameias decorativas. Manteve-se na família do magnata até ao presente e pertence à Fundação Eugénio de Almeida.
3. Um jardim zoológico encantado
A muralha e as cocheiras acasteladas foram o cenário perfeito para criar um vale de fantasia exótica, cheio de pitoresco e ideias caricaturais. Era assim o início do Jardim Zoológico de Lisboa que se instalou neste parque a partir de 1883. Com o apoio do Rei D.Fernando II, o primeiro projeto do tipo da Península Ibérica chamava- se Jardim Zoológico e D’Aclimatação de Lisboa.
A família Eugénio de Almeida cedeu o Parque de Santa Gertrudes gratuitamente por dez anos e, aproveitando a arquitetura do jardim definida por Weiss, criaram-se pequenos edifícios e pavilhões para alojar os animais: um quiosque dos macacos, uma tenda árabe para camelos, um pavilhão chinês gigante que servia de gaiola a diferentes pássaros, uma torre cónica para as cabras montarem. O lago, onde se passeava de barco em torno das rochas do Monsanto, era dos cisnes, dos gansos e dos patos.
Entrar neste Jardim Zoológico era como visitar uma coleção de objetos valiosos, algo a que só a alta sociedade tinha acesso. Pela atual Marquês da Fronteira, atravessando o portal da muralha, paravam à esquerda para comprar comida para os animais. Se queriam entrar com menos espalhafato, os visitantes podiam chegar discretamente pelos portais laterais, na atual Dr. Nicolau Bettencourt e Marquês Sá da Bandeira — mais ou menos onde hoje entrariam no Jardim Gulbenkian.
4. Do velódromo à Avenida de Berna
Ao fundo do Parque Santa Gertrudes, também chamado Parque José Maria Eugénio, um pinhal aconchegava o terreno, abrigava-o do vento e dava-lhe um pano de fundo verde. Aí nasceu um prado que dá entrada à Fundação Gulbenkian — mas isso foi só na segunda metade do século XX. Na alvorada desse centénio não havia ainda Avenida de Berna e a propriedade estendia-se até ao Rego.
Com a mudança do zoo para a Palhavã e finalmente para Sete Rios, onde se mantém, a diversão para a alta sociedade continuou perto desse pinhal: ergueu-se o Velódromo de Palhavã, inaugurado a 14 de Maio de 1905. O sítio era chique, com direito a camarote régio, onde D.Carlos podia assistir a façanhas do hipismo, recordes de bicicleta guiadas por aristocratas e até às estonteantes primeiras corridas de carros, reservadas às famílias mais ricas.
O tema era velocidade. Será uma vocação incontrolável do local? Em 1917 define-se a Avenida de Berna. Foi a primeira vez que o Parque foi delimitado a norte. A estrada foi progressivamente ganhando velocidade, ao mesmo ritmo a que o automóvel evoluiu e povoou Lisboa. Do velódromo à avenida, as bicicletas perderam a corrida e a ciclovia, que só voltou ao local dois escassos anos, entre 2021 e 23.
5. Um condomínio privado
À imagem da cidade oitocentista de Paris, nasceram aquelas a que, mais de um século depois, continuamos a chamar Avenidas Novas. As ruas largas e os seus prédios, sobretudo habitacionais, fazem parte de um ideário de separação entre a classe endinheirada e dirigente — dos governos, das instituições públicas, das empresas — e a classe trabalhadora, que foi organizando a sua habitação em redor.
A família Eugénio de Almeida já tinha perdido toda a área do Monte Almeida no final do século XIX para que se fizesse o grande eixo do futuro da cidade: a Avenida da Liberdade, a Rotunda do Marquês e o Parque Eduardo VII. A contenda com a Câmara de Lisboa durou décadas na justiça, mas a urbanização dos arrabaldes avançava, não era possível parar aquilo a que se chamava progresso.
Talvez tentando estancar a sangria, na escritura que regista uma troca de terrenos para a abertura da Avenida de Berna, os descendentes de Eugénio de Almeida comprometem-se a construir no Parque de Santa Gertrudes dezasseis habitações com respetivos jardins.
O Parque continuaria a ser fechado e, pelo contrato, seria aberto ao público para passeios aos domingos e feriados. Seria, provavelmente, o primeiro condomínio privado do país, à moda do que se fazia em Paris, de onde vinham as ideias para tudo.
O condomínio e a franquia do parque não chegaram a cumprir-se. As razões apontadas são a turbulência da Primeira República e, talvez, da família. Mas com este contrato, o quarteirão encaminhou-se arborizado até aos dias de hoje.
6. Fado, farturas e um water-shute
Depois de encerrado à fruição pública durante 45 anos, os portões do Parque José Maria Eugénio voltaram a abrir-se com um Luna-Parque. O nome era comum falar de um arraial de rodas gigantes, carrosseis, luzes e das magias que a tecnologia do século XX proporcionava. Com a cedência destes terrenos por Vasco Maria Eugénio de Almeida, bisneto de José Maria Eugénio de Almeida e Conde de Vilalva, nascia em 1943 a Feira Popular de Lisboa.
O propósito era nobre, a diversão era estridente. No meio da II Guerra Mundial, comprar o bilhete para a feira popular revertia para a Colónia Balnear Infantil O Século, no Estoril. As diversões não eram uma completa novidade da capital. Nos últimos anos do século XIX, estes parques de diversões eram uma nova encarnação das feiras com bailarico, fados, teatros de revista e truques de magia que divertiram a classe trabalhadora Lisboeta.
Mantinham-se as condições precárias de higiene nas tascas, o chão de lama, mas as diversões modernizavam-se pouco a pouco. Nos anos 1930, junto ao Parque Eduardo VII, tinha já inaugurado um Luna-Parque que durou apenas dois anos.

A Feira Popular que inaugurou neste no Parque de Santa Gertrudes em 1943 era, porém, verdadeiramente moderna e, portanto, não era um local de segregação da classe trabalhadora: toda a gente lá ia, ver e ser visto.
Era um ar de modernidade europeia traduzido para português com os devidos limites, já que o seu ideólogo era um homem do regime: José Leitão de Barros, um cineasta com vocação para tornar o sonho do cinema em realidade. Foi o arquiteto de cenários espetculares como esta feira ou as Marchas Populares de Lisboa, momentos populares de fantasia para extravasar sem que o regime perdesse a rédia.
Em meados do século, chegava-se à Feira Popular de elétrico, que passava ao lado da Gulbenkian, na Estrada de Benfica, de que Lisboa mantém ainda um importante troço, a começar mais adiante, perto do Jardim Zoológico. O desenho dos pavilhões aproveitou alguns dos caminhos definidos por Weiss e substituiu o ambiente bucólico por risos, gritos, música e sirenes.
Um pavilhão com as “farturas do Jorge”, tasquinhas de caldo verde e frango assado, fados e teatros de revista conviviam com as diversões que arrepiavam a avó e fascinavam o neto: o poço da morte, a grande roda, o castelo misterioso, uma pista de automóveis, o comboio fantasma, a casa dos espelhos e o water-shute, uma montanha russa que parava em cima do lago molhando todos os passageiros.
O lago manteve a sua centralidade. Além do water-shute, podia navegar-se o lago com os barcos-automóveis, ganhou a Nau-Catrineta, onde se dançava swing, e até um restaurante, o exótico Dragão de Ouro.
7. Aqui começou a televisão
“Ao serviço da arte, da cultura, da ciência, da técnica, a televisão é hoje, em todo o mundo, um eficiente instrumento de educação. Ela é ao mesmo tempo o livro, o palco, o concerto, o estádio, a viagem, o jornal. sendo assim, quem não verá na missão desta empresa uma tarefa nacional?”
Assim abria uma brochura distribuída a quem passou pela Feira Popular no Parque José Maria Eugénio, no dia 4 de setembro de 1956. Começava assim a história da televisão em Portugal, depois de estabelecida uma comissão técnica ainda no início da década.

Entre rodas gigantes e farturas, construíram-se dois pavilhões como tubos de ensaio. Lá dentro eram o estúdio, as régies, fazia-se o som, a montagem, a transmissão e cá fora juntavam-se centenas de pessoas para ver, numa caixinha pequena, a preto e branco (com certeza sem conseguirem ouvir grande coisa). Com essa primeira emissão, a RTP prometeu pianistas, fadistas, mágicos e informação.
Com o tal livrinho, explicava tudo sobre esta nova tecnologia: quando, como e sobretudo, quanto custava o caixote que reorganizou a sala dos portugueses. A aquisição do jardim pela Fundação Calouste Gulbenkian, em 1957, marca o fim da Feira Popular na zona da Palhavã: a edição de despedida foi nesse verão. Depois a alegria mudou-se para os terrenos de Entrecampos até 2003.
8. O eucalipto é a régua do edifício
A Fundação Calouste Gulbenkian podia ter instalado a sua sede, museu e jardim num terreno no Campo Grande, noutro junto à Fontes Pereira de Melo e ao Hotel Aviz (onde Calouste Gulbenkian viveu até à sua morte, em 1955), num espaço junto ao Parque Eduardo VII, nas Amoreiras ou no Parque de Santa Gertrudes.
“Esta era a hipótese com maior área de vegetação e Azeredo Perdigão (advogado de Gulbenkian e administrador da Fundação) sabia que Gulbenkian gostava da natureza, viu que este era o parque ideal”, explica Paula Corte-Real, arquiteta paisagista da Fundação Calouste Gulbenkian.
O terreno foi, mais uma vez, truncado. Uma pequena área, conhecida como jardim Vilalva, ficou na posse da família Eugénio de Almeida. Manteve-se nele, até antes das mais recentes obras, o cenário encantado de todas as atividades públicas desta quinta, com o desenho de Weiss e a muralha em castelo.

Na área destinada ao jardim Gulbenkian, Gonçalo Ribeiro Telles e António Viana Barreto, os arquitetos paisagistas escolhidos, trabalharam desde os primeiros planos para recuperar a vegetação que estava doente e retirar apenas aquela que tinha morrido.
Um dos mais impressionantes exemplares era um eucalipto antigo e que, apesar de ser uma árvore exótica, serviu de referência para a definição da altura do edifício principal, desenhado por Alberto Pessoa, Pedro Cid e Ruy Jervis d’Athouguia.
Foram precisas manobras de engenharia dispendiosas para o proteger da construção e edificar em segurança. Construiu-se um muro subterrâneo com a profundidade de dois andares para proteger as suas raízes.
“Temos muito cuidado com ele, as podas têm de ser muito cuidadosas, até já teve cabos de segurança (em alguns ramos) para não se ter de fazer tantas podas. A verdade é que já está em fim de vida e algumas partes do tronco já estão mortas”, conta a arquiteta paisagista
responsável.
Num canto à esquerda da esplanada da cafetaria, olhando a partir do lago, este eucalipto faz o edifício de betão parecer pequeno. Para já, não há planos para o que fazer ao vazio que deixará ao morrer. Com toda a dignidade, continua a dizer presente e a dar escala ao edifício.
9. O jardim português
A partir dos anos 60, no antigo Parque de Santa Gertrudes, a relação entre a arquitetura e natureza é íntima. Não há uma clara distinção entre interior e exterior, a vegetação cobre ou revela os edifícios que se fazem de betão e paredes de vidro; um prado extenso cobre o parque de estacionamento e a fachada nobre, virada para o trânsito da Avenida de Berna é coberta de floreiras.
Alberto Pessoa, Pedro Cid e Ruy Jervis d’Athouguia fazem parte da geração moderna de arquitetos; Gonçalo Ribeiro Telles e António Viana Barreto pertencem à primeira geração de arquitetos paisagistas portugueses, responsável por uma nova e revolucionária forma de ver o espaço público. No conjunto puseram em prática o que defendia o movimento moderno: o desenvolvimento dos edifícios e dos seus espaços exteriores em conjunto e não mais uma casa com o seu jardim em frente.
Chegava, portanto, a altura de olhar para a natureza portuguesa. “O jardim à francesa é muito geométrico para mostrar o domínio do homem sobre a natureza; o jardim à inglesa tem um aspeto de parque, é pitoresco. O que os arquitetos pensam é que não faz sentido imitar um jardim estrangeiro, porque há uma paisagem portuguesa”, explica Paula Corte-Real.

Usaram a vegetação autóctone para criar espaços, mantendo as árvores maioritariamente exóticas que se encontravam no local. Não há contradições nisso: para Ribeiro Telles e Viana Barreto, o jardim também é acontecimento natural, mas também cultural, fruto de escolhas humanas.
Assumindo essa intervenção de Jacob Weiss, inspiraram-se nas matas para criar volume e proteção contra o vento e o barulho da cidade; nas clareiras para criar espaços de luz e desafogo; nas sebes para delimitar espaços. Desapareceu o caminho que furava o jardim de um lado ao outro e criou-se um sistema de passeios que percorrem estes diferentes ambientes.
“No chão, os quadrados de betão são formas que convidam a parar e a contemplar”, explica Paula Corte-Real. “A presença da água é essencial no jardim mediterrânico. Aqui está em todo o lado”, continua a arquiteta.
Em pequenos espelhos de água, ribeiros e no lugar do lago central, magnetizante de todas as eras deste parque (dos cisnes ao carrossel de água). Os arquitetos paisagistas escavaram um declive no terreno, para dar uma sensação mais aconchegante e protegida junto ao novo lago, para onde converge toda a água do terreno.
Tudo isto quis criar um ambiente de fruição da natureza, de harmonia entre o humano e o natural no centro da cidade. Numa entrevista a Ana Sousa Dias, em 2003, Gonçalo Ribeiro Telles dizia que a memória da ruralidade e da diversão histriónica daquele lugar não facilitavam este processo. Era preciso cortar com essa ideia, não tanto com o lugar.
Também por isso defendeu que o nome do lugar deixasse de ser Parque Gulbenkian, como era no início. Passou a jardim: mais próximo da escala humana, mais distante da ideia de diversões.
10. Os patos não estão sozinhos
“Na memória descritiva do projeto, os arquitetos paisagistas escreveram que estavam a criar ecossistemas, ou seja, condições para que os animais viessem”, conta Paula Corte-Real. Pouco tempo depois aí estavam os patos em migração, a amarar no lago, vindos da margem sul. Os que ficam a cada ano estão prisioneiros do seu peso, que já não os deixa voar — habituaram-se demasiado bem aos lanchinhos humanos.
Quando Gonçalo Ribeiro Telles projetou o Jardim Gulbenkian, ainda não tinha apresentado os planos para o Corredor Verde da cidade. Esse projeto é dos anos 1970 e só foi concluído em 2012, ligando o Parque Eduardo VII ao Monsanto. No entanto, a localização da Gulbenkian articula-se na perfeição com esses e outros mais recentes espaços verdes, na forma como traz a biodiversidade para dentro da cidade, o objetivo do arquiteto paisagista.
“Estamos a monitorizar as espécies novas no jardim a cada ano. Há três anos apareceram rouxinois. Temos garças reais, uma garça noturna, papa-moscas. Tenho amigos fotógrafos de natureza que têm dificuldade em fotografar galinhas- d’água, porque são tímidas e dizem que o melhor sítio do país para as fotografar é a Gulbenkian”, conta Paula Corte-Real. Por este jardim passam chapins, estrelinhas, melros, toutinegras, gaios. No final do mês de setembro, volta a realizar-se uma oficina de anilhagem científica, que permite estudar as migrações das espécies que passam por este jardim.
11. Um jardim com vista para um muro
Nos anos 1980, um novo edifício nasceu na Gulbenkian: o Centro de Arte Moderna, desenhado pelo britânico Leslie Martin. Este bloco tornou-se o limite sul do jardim da Fundação e Gonçalo Ribeiro Telles não ficou satisfeito. As paredes do CAM não davam vista para o Jardim de Vilalva que, apesar de não poder ser fruído pelo público da Gulbenkian, permitia ao olhar continuar a deslizar por mais verde.
Em 2005 a Fundação Gulbenkian comprou este jardim e os dois terrenos separados na década 50 voltaram a reunir-se: agora toda a área verde que resta do Parque de Santa Gertrudes pertence à Fundação e a intervenção no edifício do CAM feita pelo arquiteto japonês Kengo Kuma aquietou o espírito de Ribeiro Telles. Quem passa por este bloco comprido, seja no interior ou no exterior, vê os reflexos das árvores nas paredes vidradas. E pode simplesmente atravessar.
Tal como aconteceu no projeto que deu início ao jardim Gulbenkian, foram mantidas as árvores saudáveis, era um requisito do concurso. Nas imagens das candidaturas ao desenho desde jardim que o público conhece a partir de sábado, há sempre uma palmeira em lugar de destaque. Majestosa e um pouco exótica junto da restante vegetação, centrada junto à entrada. Destinada talvez a ser icónica deste novo jardim, não sobreviveu até ao início dos trabalhos.

O arquiteto paisagista libanês Vladimir Djurovic teve de trabalhar sem ela para a integração deste jardim no restante parque. “Vladimir Djurovic viu o que Ribeiro Telles e Viana Barreto tinham feito e perguntei-lhe o que estava a pensar fazer neste jardim. Respondeu me: ‘Nada’. Agiu com muita parcimónia, disse-me que o que Ribeiro Telles e Viana Barreto fizeram prefigura tudo o que é prática hoje no paisagismo mais interessante”, disse António Feijó, Presidente da Fundação Gulbenkian, na apresentação do projeto aos jornalistas, a 11 de setembro.
Djurovic abriu uma entrada na Rua Dr. Nicolau Bettencourt, diretamente para este novo jardim e com uma curiosa vista para as novas palas do edifício do CAM. Abriu outra para a Marquês da Fronteira onde uma pequena praça arborizada convida a sentar no que já foi a muralha do excêntrico José Maria Eugénio de Almeida.
Dentro deste terreno, às velhas olaias, ciprestes, cedros, juntaram-se árvores autóctones, como os sobreiros, carvalhos, azinheiras; uma antiga clareira foi convertida em espelho de água para expandir a novidade arquitetónica do lugar: o engawa de Kuma.
Nas costas de quem vê este colosso suave, junto à Dr. Nicolau Bettencourt, mantém-se irredutível, sem alterações, a diva do passado: as cocheiras em castelo foram casa de Maria Teresa Eugénio de Almeida, nos últimos anos de vida (morreu em 2017). O edifício continua a pertencer à Fundação Eugénio de Almeida.

12. Um alpendre japonês
Uma grande pala em curva contrasta com o betão do edifício sede. Sai da fachada sul do novo CAM. Da Marquês da Fronteira parece uma franja coberta por 3274 azulejos em três tons de branco. Debaixo deste toldo imponente há uma grande praça, um alpendre com teto de madeira, que faz lembrar o casco de um barco. É este o engawa.
A palavra tem sido repetida pela Fundação, pelos jornais e revistas. É um conceito da arquitetura japonesa que poderíamos traduzir por alpendre e que descreve espaços que não são interior nem exterior, mas de harmoniosa relação entre os dois. É um convite à entrada neste museu onde a natureza quer estar sempre presente — até no andar subterrâneo, coberto e arrefecido naturalmente pelo engawa. Aí um óculo faz a luz natural entrar no piso inferior.
Com este novo edifício, a arquitetura continua a querer viver bem com a natureza. Neste pedaço de terra entre a velha estrada da circunvalação e a Avenida de Berna, entre o século XIX e o futuro, os lisboetas continuam, como há dois séculos, a refugiar-se entre as árvores para o descanso.

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Muitos parabéns pelo artigo! No entanto detectei um erro: no final do quarto parágrafo do ponto 6) Fado, faturas… Está escrito “rédia” quando deveria estar “rédea”. É apenas um pormenor, é certo, mas saltou-me à vista.
Excelente artigo, digno de figurar na Lisboa Desaparecida, livros de Marina Tavares Dias, que eu tanto valorizo
De notar o facto de em 1890 a população de Lisboa se situar nos 300 mil habitantes, que em 2023, é aproximadamente o número de residentes atuais na capital…..
Comentários????
Pois, a especulação imobiliária, proprietários implacáveis, alojamento local, a massificação da hotelaria, tem destas coisas.
Enquanto as outras grandes capital ganham habitantes, a nossa perde, e fica igual a quase ao que era à 150 e poucos anos